#50: Kill The Boy
a morte simbólica do menino Ney
No quinto episódio da temporada 5 de Game of Thrones, o Meistre Aemon aconselha o guerreiro Jon Snow a matar o menino dentro de si para que o homem pudesse nascer. Esse processo de morte do menino seria necessário para que Snow se tornasse o líder que a Guarda da Noite precisava. Se deu certo, vai da opinião do espectador,1 mas a lição fica: o menino deve morrer para o homem nascer. Essa noção é respaldada em vários contextos e obras diferentes, de Machado2 à Bíblia Sagrada.3
Desnecessário dizerm que figura do Brasil poderia se valer desta lição.
Fui defensor de Neymar por uns anos. E o fui em parte por causa de algo que os fãs se recusam à aceitar ou talvez relembrar: Neymar nunca foi uma unanimidade, especialmente entre os mais velhos. Sempre foi criticado pelas quedas,4 pelas dancinhas,5 pelo cabelo6 e por — naquele momento apenas hipoteticamente — estar abaixo das gerações anteriores, apesar do primor incontestável de seus anos de juventude.
Juventude talvez seja a palavra que defina Neymar Jr. Ele dominou o Brasil e o mundo (que, como sabemos, é uma bola) ainda nos dias de sua juventude, um Tutancâmon da Vila Belmiro, o Rei Joás de Mogi das Cruzes, o Jacksons Five fundidos em um adolescente jogando bola. E, se Neymar foi Michael Jackson por uns bons anos, passou de Jermaine a Tito bem antes do esperado. O Menino Ney era garoto-prodígio e depois passou a ser ridicularizado pela cueca em cima da calça. O tempo foi cruel, e Ney quis ser mais cruel que o tempo, se formos sinceros.
Acho, sim, que Neymar foi mais cobrado que deveria por uns anos. Jogava futebol vistoso, e não era protagonista por estar ao lado do melhor do mundo. Ninguém cobraria Pepe, o Canhão da Vila, por ser o segundo melhor do Santos. Ney fez o que se esperava dele. O 7x1? Ele definitivamente não tem culpa de ter sido aloprado pelo Zuñiga, lesão que foi marcada pela sua recuperação rápida, inclusive. Neymar era um exemplo de bom físico no futebol, vocês lembram disso?
Os parças eram figuras de destaque, esportistas, atores, apresentadores de TV, e claro, amigos que o Neymar bancava e, se as críticas já existiam, ninguém era capaz de jurar com a mão sobre a Bíblia que não aspirava poder fazer o mesmo com os seus. A bajulação da imprensa existia em escala muito maior que as críticas, mas a imagem e a bola jogada compensavam.
Nem sei mais em que momento as coisas ficaram esquisitas. A ida para o PSG, a queda na Copa de 2018, em que conseguiu a proeza de anular um cartão legítimo por ter exagerado na simulação, a acusação de estupro por parte de Najila, da qual até se saiu bem, mas seguida de outra bem mais nebulosa que o levou a rescindir contrato com a Nike. Adotou postura mais madura por um tempo, que gerou o apelido Adulto Ney, levando ao ápice com o #NeyDay na pandemia, em que muitos adolescentes subiam a hashtag e colocavam a foto do jogador em seus perfis. Também não deu muito certo.
Neymar tretava com o jovem Kylian Mbappé, e perdeu. Trouxe Messi em momento de crise do Barcelona para jogar a tiracolo, não deu certo. Foi para a Arábia Saudita e nem lá conseguiu sobrar. Não foi aceito na MLS do amigo Messi, e seu retorno ao Santos — evocando o já infame “eu vou 'mas… eu volto! #Toiss” que deixou no vestiário ao sair — sempre soou um movimento desesperado. Se Neymar antes andava com Medina e Luciano Huck, seus grandes escudeiros hoje são Cris Guedes e Fui Clear, que foi intragável o suficiente em uma transmissão a ponto de fazer Tiago Leifert (qualifica como parça?) desistir do programa que apresentavam juntos. Que fase.
Mas por incrível que pareça, esse vídeo que eu anexei lá em cima, postado no canal do próprio jogador, acaba revelando uma profundidade no personagem. Ao mencionar a traumática eliminação para a Croácia, nos pênaltis, em que o Brasil tomou o empate aos 117 minutos, e Neymar sequer chegou a combrar o pênalti que lhe era devido.
Para muitos, o prego final no caixão; e, entre esses muitos, de certa forma está o próprio Neymar. Ali pela marca dos 2 minutos, ele começa a descrever o episódio, falando das dificuldades de bater um pênatli, defende sua decisão de cobrar o quinto pênalti, e descreve o clima de velório no hotel no final do jogo, comparando ao seriado The Walking Dead. Falando em velório, Neymar afirma que teve uma visão do próprio, em uma cena que parece saída de uma creepypasta: todos com olhos vermelhos falando sobre ele como se ele não estivesse ali.
Exagero dramático? Talves, mas Neymar nunca quis ser ator e deve fazer uns 5 anos que ele não se submete a roteiro nenhum. Difícil acreditar na absoluta sinceridade, mas o fato é que Neymar, ao menos na frenrte das câmeras, admitiu que viu algo dentro de si morrer. Será que agora ele vai, finalmente, sepultar o menino? Ainda há tempo? Como jogador, tenho minhas dúvidas, especialmente pela questão física.
Mas existe um mundo depois da aposentadoria de Neymar. Um em que ele viverá por muito tempo contando suas histórias, e é um filme que nós já vimos e veremos várias vezes. Neymar não é mais um menino, mas ainda tem uma vida pela frente. É o destino de qualquer um que não seja um mártir. E, já que Neymar fará parte do nosso mundo por bastante tempo, é bom que ele mate o menino, para que o homem possa nascer.
Enquanto isso, vagabundo vai continuar lá…
É isso, meus queridos, até a próxima!


