#49: Abutres
Drake e a ideia de "culture vulture"
Ouvindo Rap com frequência, um termo que eu vejo com bastante frequência é culture vulture.1 Pessoas que se apropriaram da cultura para fazer sucesso e depois a abandonam completamente e, às vezes, até desdenham dela.
Como quando o Kid Rock não só deixou de ser rapper pra virar um tiozão do Classic Rock, o rei do tributo, como virou um MAGAhead de primeira.2 E sem ser true believer, o que é pior ainda.
Quando o mgk virou Pop Punk depois de ser massacrado pelo Eminem — é, outro branco que lidou com muitas dessas acusações — e hoje faz uma mistura de Rock e Pop com eventuais momentos de Rap. Fez até feat com Fred Durst recentemente
O Post Malone passou um tempo fazendo um Pop Rap tão popular quanto rechaçado — e tinha mesmo uns bons refrões, vai — só pra desdenhar do rótulo de rapper e tentar virar um roqueiro pra acabar mesmo virando um cantor de Country (!!!!).
E claro, tem o Drake.
Além de ser humilhado em todos os quesitos relevantes pelo Kendrick na beef que eles tiveram, talvez a maior do século, ele foi repentinamente chamado de culture vulture e chegou a ser chamado de “colonizador” no hit Not Like Us. Não era segredo pra ninguém que o canadense passou os últimos 15 anos em busca de estéticas que pudesse dominar e fazer dinheiro com isso. E, em um gênero preocupado com autentiticidade e ancestralidade, cada vez mais os fãs e até mesmo outros artistas se preocupam em resguardar o Rap como forma de resistência, o que significa que deve-se tomar cuidado com turistas.
Fenômeno diferente, mas também é a ideia de artistas que começam no meio do Rap, crescem e depois abandonam a comunidade, afirmando que são “artistas” e não “rappers”. A implicação é clara: o Rap é uma caixa que impede que o artista alce voos maiores, e é necessário abandonar a pecha. Não é o caso de Drake, por exemplo: o canadense sempre teve seus tons de R&B desde que começou a fazer sucesso, mas também quis muito ser rapper e conseguir respeito e crédito nas ruas. Não é o caso de figuras como o britânico Fakemink, que foi profundamente criticado ao afirmar que era artista, e não rapper, e logo depois apareceu ao lado do grande André 3000, hoje aposentado como MC e focado em sua carreira de flautista.
Antes, os vultures necessariamente precisavam predar uma cultura em decomposição para se alimentar. Hoje, eles podem se misturar em meio à cultura, quase indistinguíveis, buscando quem possam tragar. Exatamente como vampiros.
E eis o outro gancho do texto.
Um dos filmes mais comentados do ano passado foi Sinners, do diretor Ryan Coogler, que trouxe uma história de terror e música no Sul dos EUA na era da Grande Depressão. Gêmeos interpetados por Michael B. Jordan abrem um bar clandestino de blues e lutam contra vampiros. E claro, essa é só a superfície.
O vilão do filme é Remmick, um irlandês que também foi vítima do apagamento cultural pelos britânicos, e acabou virando um vampiro com a ideia de criar uma comunidade livre e sem preconceitos, mas que na prática funciona como uma colmeia ligada à sua personalidade, em que as vivências de todos os “vampirificados” se misturam e se dissolvem.
Veja, Remmick explicitamente declara não ser racista. Ele se ofende ao ser confundido com um membro da KKK, e assassina dois de seus membros ao ser convidado a entrar. Ele não invade a propriedade e, por extensão, a “cultura” (aqui até entendida no sentido literal, de cultivo) de ninguém: ele só entra ao ser convidado. Ele aprecia sinceramente o Blues e quer promover o intercâmbio cultural. Mas para isso, precisa matar e inserir as pessoas que morde em sua consciência coletiva.
Sinners não é — ou não parece ser, pelo menos — um tratado contra o multiculturalismo. Mas trata do cuidado que devemos ter com os turistas e com quem quiser entrar em uma cultura que não é sua. E, para quem está nessa posição de convidado, o alerta é importante: tire a poeira dos seus pés, seja grato, e entenda seu papel ali. As vivências de cada um são e precisam ser particulares, e a verdadeira harmonia cultural só acontece quando cada um pode existir em sua própria consciência.
É fácil bater no Drake, ainda mais depois que o Pusha e o Kendrick fizeram o trabalho pesado. É muito fácil zoar o Post Malone e o mgk, eu mesmo já fiz muito isso. Mas talvez precisemos botar a mão na consciência e nos perguntar o que permitiu que eles tomassem os caminhos que tomaram. A solução? Eu não sei, só estava pensando aqui no meu canto…
Recomendações
Esse texto da boa newsletter Desafiador Do Desconhecido3 sobre o Sinners que me inspirou a escrever esse texto:
E esse ensaio da NPR sobre o filme.
Esse vídeo sobre a influência do Expressionismo Alemão no cinema e na TV, do Nosferatu “original” ao Gabinete do Dr. Caligari4 até a Tragédia de Macbeth de Joel Coen e a série de TV Euphoria, passando pelo film noir e pelo cyberpunk.
Toma uma lista de 20 filmes para entender a blaxploitation.
Enquanto eu pensava no que escrever, apareceu esse artigo da Astra sobre uma certa “credibilidade étnica” quando se trata de alguém famoso que faz parte de uma minoria, e como somos propensos a criar “eminências pardas”.
Sobre o FakeMink e outras figuras que desdenharam do Rap ao longo de suas carreiras:
É isso, meus queridos, até a próxima!






